11 de mai de 2013

não vale a pena esperar que 1993 volte outra vez


Nada melhor pra retomar o blog do que esta palestra de Neil Gaiman sobre "o futuro dos livros e da indústria cultural em geral", como disse o Inagaki aqui (com o perdão do quase-eco), onde você encontra a transcrição e a tradução completas, com o devido crédito da valente alma que encarou esse rojão e meia dúzia de historietas e causos deliciosos. Só .

Por aqui, só uma palhinha:

Tubarões já existiam na época dos dinossauros. E que alguns até mesmo antecederam os dinossauros. Mas os tubarões ainda estão por aí, porque nunca, jamais surgiu algo tão bom em ser um tubarão quanto eles próprios. Por isso eles permanecem.” E continuou: “Livros são muito bons como livros. Funcionam até com energia solar, é genial! Eles não estragam se caem na banheira. Podem inchar, mas permanecem legíveis. E são incrivelmente portáteis!" (...) 
A certeza veio quando estive em Manila, pouco depois do lançamento comercial do Kindle, e comecei a conversar com o pessoal de uma livraria que me disse que, se dependesse deles, parariam de vender livros impressos. Porque lá nas Filipinas todos compravam livros se baseando pelos preços, e os livros digitais seriam muito mais baratos. Percebi aí que o futuro seria mais estranho e diferente do que qualquer coisa que eu tivesse imaginado. (...) 
Quando as pessoas me perguntam, ao longo dos anos, sobre acabar com a pirataria, sobre impedir que elas leiam coisas e baixem coisas de graça, costumo pedir, nessas salas lotadas, para que as pessoas que tenham um autor favorito levantem a mão. Muitas mãos se erguem, e então eu pergunto: “Ok, quem descobriu seu escritor predileto…” – e vocês sabem, um autor favorito é o tipo de pessoa que quando escreve e lança algo novo você vai lá e compra, porque você precisa ter aquele livro ou qualquer outra coisa que ele faça – e as mãos permaneciam no alto – “… indo a uma livraria e comprando um livro?”. Algumas poucas mãos continuaram levantadas. (...) Não encontramos as pessoas que amamos comprando-as. Primeiro nós as encontramos e só depois é que descobrimos que as amamos. Por isso decidi desde cedo que não iria entrar em uma guerra. Prefiro incentivar, apostar no boca a boca. (...) 
De repente, o mundo mudou. Agora a questão é: tudo está lá fora, como encontrar as coisas boas, como nos fazer ouvir num mundo de excesso de informações? Passamos dos problemas de escassez a problemas tão reais quanto, mas agora de abundância. O segredo agora é encontrar o sinal em meio ao ruído, é conseguir ser ouvido. Um mundo no qual qualquer um pode publicar qualquer coisa, de excesso de informações, é um mundo no qual já não confiamos em guardiões de portas tanto quanto no passado, acreditando mais em guias e recomendações que nos apontem o que é bom. Nós confiamos no boca a boca, e na sorte, e em nos transformarmos em dentes-de-leão: (...) as sementes partem, flutuam e somente algumas delas pousam em lugares nas quais podem crescer. (...) 
Se prendermos nossas respirações e fecharmos nossos olhos, vigiando nossos portões com armas maiores e mais potentes, então o tempo voltaria para trás, e o ontem voltaria a acontecer, e todos nós conhecemos as regras do passado. Os passos para publicação eram simples: autores, agentes, livros, almoços incrivelmente demorados… Aquilo era o mercado editorial. Não mais. 
Nos dias atuais, os portões vigiados estão em lugares onde há cada vez menos muros reais. Na música, os muros já caíram há tempos, junto com a venda de objetos físicos. As gravações caseiras não mataram a música. Ela está por aí, passando muito bem, sendo feita cada vez mais. O pulo do gato é descobrir como encontrar as coisas boas. Ou, para as pessoas que criam músicas, descobrir uma maneira de monetizar o que estão fazendo. As coisas mudam. (...) 
Podemos imaginar um mundo no qual um autor não ganhe dinheiro vendendo livros, mas sendo remunerado por leituras. Um mundo em que você compra um exemplar impresso e automaticamente ganha também suas versões para e-book e audiobook. A verdade é que qualquer coisa que inventarmos provavelmente estará certa. Esta é a hora dos dentes-de-leão. Abrace o novo do mesmo modo que abraçamos o velho. Estamos na fronteira e não há regras aqui. Nos limites, podemos quebrar leis que nem existem ainda. Podemos entrar por portas que ainda dizem “saída” e escalar janelas. 
O modelo para amanhã é o mesmo modelo que venho usando com entusiasmo desde que comecei a blogar, em 2001, e talvez o mesmo que uso desde que comecei a acessar a internet através da Compuserve, em 1988. O modelo é: tente de tudo. Erre. Surpreenda-se. Tente outra coisa. Fracasse. Fracasse melhor. Tenha sucesso de modos que jamais teríamos imaginado há um ano, ou há uma semana. Este é o momento de sermos como dentes-de-leão, lançando milhares de sementes e perdendo 900 delas. Se uma centena, ou mesmo uma dúzia delas sobreviverem, crescerem e gerarem um novo mundo, creio que isso será bem mais sábio do que esperar que 1993 volte outra vez.

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